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Aos apreciadores, um conto curto, ao meu estilo, viajando no universo da literatura.
Olhos Azuis
Fazia perguntas demais. O pai e a mãe ignoravam a maior parte das indagações. Irritavam-se na insistência e até ralhavam quando o assunto tornava a ser o oceano azul que morava em seu olhar. Os outros meninos da rua jogavam pelada no areio da praça ou apostavam bolitas no gude. Dirceu não. Lia pilhas de livros retirados religiosamente na escola. Tanto que na tenra idade, antes dos 10 anos já se aventurava na coleção Vaga-Lume. Garoto tão esperto quanto irritadiço, diziam. A molecada do beco caçoava dos seus olhos azuis e imensos. Em coro, à sua passagem, entoavam " lá vem, lá vem o papa-figo, meu bem", e dispersavam correndo antes que pudesse alcançá-los porque seria surra na certa. Sentia-se engaiolado, como as aves que vira no zoológico noutro dia. Estranho de pele clara e olhos anilados, uma raridade em extinção naquela ilha de corpos morenos e olhos escuros. O pai, a mãe, os dois manos, todos eram assim, tisnados, cabelos negros e revoltos. E foi ao acaso, que encontrou na cômoda dos pais, entre papéis antigos, a foto de uma mulher, como aquelas das revistas, bonita como a Angélica e a Eliana, com o Céu pintado no fundo dos olhos. No verso, o nome Marília, só. Temeu possíveis palmadas por aventurar-se no mundo dos adultos, e reteve no ostracismo aquela imagem, que furtou do pai e escondeu no feltro da carteira. A angústia cresceu, um coágulo exercendo pressão no cérebro, e o acompanhou até os dezoito, quando às portas de ingressar na Universidade, leu Tomaz Antônio Gonzaga.
C.Martin
Escrito por Por Cê Martin e Dé Rodrigues às 13h56
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